Artigo: Pastores Ensimesmados

 
 

Wanderley Pereira da Rosa

Tenho visto ao longo dos anos uma doença, uma espécie de inflamação, que têm atingido muitos dos nossos pastores: o excesso de concentração em seus próprios ministérios.

É claro, que há certo grau de normalidade em boa parte de nossa vida, girar em torno do nosso ofício. As pessoas que encontramos e com as quais mais nos relacionamos, nossas conversas, nossos interesses, as leituras que fazemos. Até aí nada de mais. Contudo, muitos ministros vivem de tal forma mergulhados em suas igrejas e ministérios que perdem uma perspectiva maior da vida. Sofrem um reducionismo que se expressa de várias formas – um reducionismo cultural, relacional, existencial, geográfico, etc.

São pastores que não lêem mais nada a não ser livros relacionados com o tema da religião e da teologia (quando lêem). Não ouvem nenhum outro tipo de música, a não ser a música sacra. Não se interam de nenhum outro assunto, a não ser os ligados à sua igreja e denominação. Crêem que a leitura de um jornal, ou ficar sabendo o que está acontecendo na novela do momento e a citação deste fato em um sermão será suficiente para demonstrar atualização com o dia-a-dia do mundo.

Ora, Jesus demonstrou em seu ministério atualização com a história do seu povo, conhecimento profundo dos fatos políticos que envolviam a sua época, os dramas sociais vividos pelos seus conterrâneos, com as histórias (verdadeiras ou metafóricas) que rolavam entre as vilas – transformou muitas dessas histórias em parábolas, demonstrou entendimento da alma humana. Enfim, interessou-se por coisas triviais (pesca), sociais (alimentou os famintos), políticas (“dai a César…”), psicológicas (a mulher samaritana), o luto (a filha de Jairo), doenças físicas (tantas curas), espirituais (os endemoninhados), financeiras (Zaqueu), religiosas (os ataques aos fariseus), familiares (a questão do divórcio), morais (a mulher adúltera), etc. Jesus era um homem inteirado com a cultura do seu tempo.

Nossos pastores, frequentemente, não têm amigos não evangélicos. O máximo de relacionamento com alguém que não seja da igreja é com um parente que ainda não se converteu. Recentemente ouvi em dois sermões, os pregadores afirmando algo assim: “bom mesmo é estar com os cristãos que gostam de conversar sobre as coisas de Deus. Porque o ímpio só sabe conversar sobre política, futebol, mas quando você quer falar sobre Deus ele não quer saber. Por isso, eu prefiro estar com o povo de Deus”. Isto estaria bem não fosse o fato de Jesus ser conhecido como amigo de publicanos e pecadores.

Nossos pastores, salvo alguns casos, tantas e tantas vezes têm lidado com os dramas existenciais da maneira mais simplista possível. Divórcio, drogas, gravidez antes do casamento, desemprego, homossexualismo, estupro, inimizade, amargura, depressão, ódio, para tudo há uma mesma pregação. Muda-se aqui e ali alguma frase, uma ilustração, mas, no final, a receita é sempre a mesma, confiar em Deus, orar, jejuar e continuar tentando. Seja o ouvinte criança, adolescente, jovem, adulto ou idoso. Assim como existe o samba de uma nota só, existe o pregador de um sermão só. Anos se passam, você volta a ouvir aquela pessoa pregando e você tem a sensação de que nem um dia sequer se passou, a mesma pregação, as mesmas ênfases, as mesmas ilustrações, a mesma carga de culpa lançada displicentemente sobre os irmãos e irmãs.

Jesus teve uma conversa com cada pessoa. Ele ouvia, fazia perguntas, dava exemplos, apontava caminhos, estabelecia princípios e deixava a decisão com seu ouvinte. Acima de tudo, Jesus estava disponível para todos.

Até geograficamente, nossos ministros têm se limitado. O trajeto é mais ou menos o seguinte: casa, igreja, pizzaria (sempre a mesma), banco. Praia, nem pensar; cinema, perda de tempo; shopping, de vez em quando; festas, aniversários do pessoal da igreja. Uma variação desta rotina é um evento esporádico, que se reveste de uma certa áurea de algo muito especial, quando deveria fazer parte da semana como qualquer outra coisa.

Jesus pregou, curou, orou, atendeu pessoas, mas também caminhou, pescou, participou de festas populares, descansou…

Quais são as conseqüências de nossos pastores viverem ministérios ensimesmados?

Primeiro, passam a fazer uma leitura rasteira da realidade. Como estão olhando o mundo a partir de uma única posição, começam a achar que só existe aquela interpretação das coisas, daí surgem as receitas fáceis.

Segundo, tornam-se cada vez mais legalistas. A falta de liberdade na vida leva consequentemente a uma pregação farisaica e moralista, cheia de culpa e exigências. Domingo após domingo as pessoas se dirigem para a igreja para acrescentarem uma boa dose de culpa às suas vidas já torturadas, muitas vezes, por dramas os mais diversos.

Terceiro, não admitem qualquer outro estilo de vida. Como vivem ensimesmados neste estilo de vida, casa-igreja-pizzaria, qualquer um que opte por viver mais do que isto é visto com desconfiança. Tenho ouvido pregadores que “batem” pesado de seus púlpitos nos crentes domingueiros, ou que faltam a Escola Dominical, ou ao estudo bíblico da semana, ou ao grupo familiar… Já vi até pastor elogiar um jovem que faltou a aula para ir ao culto semanal. Segundo aquele pastor, isto era sinal de espiritualidade. Centrados em suas igrejas, criam programações e mais programações para preencherem, de preferência, todas as noites da semana. Defendem os valores familiares, mas arrancam as famílias de suas casas, noite após noite, para prestigiarem a programação para a qual ele se dedicou tanto. Parece até que há uma certa inveja ou raiva não declarada, pelo fato de pessoas desfrutarem de coisas que ele abriu mão por amor ao ministério.

Quarto, muito frequentemente tornam-se pessoas cheias de empáfia e arrogância. Senhores de si. Muito seguros de suas opções de vida, de seus ministérios, de sua capacidade como pregadores, de seus discursos cheios de coerência, de suas vidas cheias de moral, de suas famílias bem vestidas, limpinhas e comportadas, enfim, de suas versões de Alice no País das Maravilhas.

Só não me sinto à vontade para questionar a sinceridade (salvo exceções) de nossos pastores. Não questiono. Contudo, não se trata de uma questão de sinceridade, trata-se de um grande equívoco cometido em nome de Jesus, em nome do Evangelho. Como disse Bonhoeffer, somos igreja no mundo e para o mundo e não aquém do mundo. Alargar nossas vidas pode nos ajudar a fazer uma leitura mais humana e evangélica da vida. Jesus nos deu exemplo. A vida está repleta de pecado, de tentações e de forças anticristãs. Mas tudo isto não se encontra fora dos portões de nossas igrejas. Esta é a realidade que cerca toda a existência.

Por outro lado, a vida tem muita coisa bela. Muito prazer lícito. Muita beleza a ser celebrada. Vivemos num mundo multi-cultural que vale à pena ser admirado. Num mundo com uma natureza desconcertantemente linda. Num mundo com pessoas, pensadores, escritores, artistas, evangélicos ou não, que vale à pena serem escutados.

Afastar-se um pouco do nosso dia-a-dia, das nossas certezas absolutas, do nosso itinerário intelectual, espiritual e geográfico é um bom remédio para esta inflamação.

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(*) Wanderley Pereira da Rosa é Diretor Geral da Faculdade Unida; Doutorando em Teologia, PUC/Rio; Mestre em Teologia, Faculdades EST; Licenciado em Filosofia, Universidade Federal do Espírito Santo; Bacharel em Teologia, Seminário Presbiteriano de São Paulo.

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